Do CIC ao Mudi: uma história de ciência, pessoas inspiradoras e compromisso social
Carregar o reconhecimento de ser um dos dez museus mais visitados do país, é para poucos. O Mudi celebra 40 anos de história, sendo um dos maiores museus de ciências do Brasil. Décadas com muita história que começou lá atrás, em 1985, com o nome de Centro Interdisciplinar de Ciências (CIC), sendo parte da dissertação mestrado de Polônia Altoé Fusinato, professora, já aposentada, da Universidade Estadual de Maringá (UEM).
A ideia veio ao observar como era estruturado o sistema de ensino. “Se o professor da universidade e o professor do ginásio tinham o mesmo patrão, o Estado, por que um não poderia ajudar o outro?”, questionou à época. Então, o projeto do CIC foi totalmente estruturado com metodologia, formato e princípios com foco nessa interdisciplinaridade, fundamento que é mantido atualmente.
Naquele mesmo momento, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) havia solicitado projetos de extensão que aproximassem a universidade da comunidade e a proposta que tinha de um centro de ciências foi admirada pelos professores.
“Os professores que trabalhavam comigo eram muito dedicados, todos da Química, da Matemática, da Física e da Biologia. Sempre que precisávamos resolver algo do projeto ou dos cursos, a gente se reunia e todos opinavam. Nunca deixei só um falar; fazia questão de ouvir cada um. Eu dizia que quem coordena não é dono de ninguém. O coordenador está ali para organizar o trabalho, não para mandar na vida dos outros. Isso eu aprendi muito, na prática”, relembra a professora.

Na entrevista, a professora também evidencia que o projeto trouxe um impacto positivo muito grande para a população do Norte do Paraná, já que os cursos oferecidos pelos docentes da universidade aos professores da Educação Básica tinham uma dinâmica muito bem definida. A parte teórica era entregue por escrito, onde faziam xerox ou cópias do material. O conteúdo era posteriormente trabalhado em sala, em conjunto, e de forma colaborativa, sempre contando com a participação de todos, para instigar os futuros professores a serem, além de ouvintes, capazes de dar a sua opinião e tentar fazer reproduzir a didática.
Polônia é graduada em Matemática e com especialização em Ensino de Física, ambas pela UEM, e com mestrado em Ensino de Física pela Universidade de São Paulo (USP). Ela se lembra dos primórdios e de como foi para conseguir um espaço para sediar o projeto de extensão. Em 2023, a professora recebeu da Câmara Municipal de Maringá o título de Cidadania Benemérita, uma homenagem a sua dedicação ao ensino na UEM.
E foi na casa do zelador, no Instituto de Educação, que a primeira sede do projeto foi materializada. Porém, o fato de ser um ambiente pequeno não era promissor para visitas. Assim, foi transferido para a antiga biblioteca da universidade, onde o CIC permaneceu por vários anos, sendo totalmente transferido em 2002 para a sede, totalmente concluída, que conhecemos hoje.

Espaço de descobertas
O professor de Anatomia Humana na UEM, Marcílio Hubner De Miranda Neto, é curador do Museu há mais de três décadas. Desde que entrou no projeto em 1990, ainda na era CIC com cinco anos de existência, ele enxergava o Mudi como um espaço para despertar vocações, onde o indivíduo toma a decisão de qual carreira gostaria de seguir.
“Eu sou convencido ao dizer isso, mas acho que o Mudi é um dos espaços que mais se assemelha àquilo que toda Universidade deveria ser. Isso porque a Universidade é para ser um universo de pensamentos, cultura e de conhecimento das diferentes áreas, onde as pessoas dessas diferentes áreas convivem e trocam entre si. Ele ainda não é o ideal, mas é o que mais se aproxima”, ressalta o professor.
Na avaliação de Marcílio, é preciso pensar a Universidade a partir do tripé ensino, pesquisa e extensão: “O Mudi, como projeto de extensão, cumpre o papel de entregar de volta à comunidade em geral o que lhe é aplicado dentro do ambiente acadêmico, através do pagamento de impostos”.
Para o curador, é por meio de visitas, palestras, cursos, espetáculos teatrais e musicais, além de eventos de itinerância, que se consegue chegar nas pessoas para devolver o investimento em forma de conhecimento acessível.
Os projetos de extensão relacionados ao Museu contribuem também para a formação de pessoas engajadas em questões sociais, já que os monitores e professores se empenham na popularização e disseminação do conhecimento.
É entre fósseis, experimentos e curiosidade que o Mudi desperta vocações, muda destinos e aproxima a ciência da população. O Museu cresceu movido por pessoas como o professor Marcílio, que há 35 anos ajuda a construir essa história.
Arte e da cidadania
Com dezenas de exposições e projetos de extensão ligados ao Mudi, desde 2005 temos o “Música e Poesia para falar de Cidadania”, com o grupo Abaecatu, que une música e poesia para falar de cidadania, ética e políticas públicas.
Completando 20 anos de apresentações, eles já levaram conscientização fiscal para mais de 50 mil pessoas em suas mais de 100 apresentações. “O grupo transforma dados frios sobre impostos e corrupção em letras e melodias que falam de responsabilidade, justiça e esperança”, enfatiza Hubner.
Uma das composições criadas também por Marcílio Hubner, coordenador e idealizador do grupo, em parceria com José Ribeiro da Costa, mais conhecido como Tijolo, é o “Samba do Imposto”, uma música que tenta tornar a educação fiscal acessível e emocionante.
Com Enéas Ramos de Oliveira na percussão, a música traz uma crítica social forte, mas com uma linguagem simples e bem cotidiana para trazer o assunto do mau uso do dinheiro público e da alta carga tributária, além de, claro, a sensação de injustiça fiscal vivida sobretudo pelas camadas mais pobres da sociedade. Entre versos e cifras, o samba convida o público a entender o próprio papel na construção de um país mais justo.
No dia 29, o grupo Abaecatu estará presente na celebração no primeiro dia de comemoração dos 40 anos do Mudi, que será focado no encontro de monitores e ex-monitores.
Arte a Serviço da Cidadania
Já o projeto “Dramatizando a Cidadania”, em parceria com órgãos governamentais e entidades, disponibiliza para à comunidade o espetáculo ‘O Auto da Barca do Fisco’. Essa iniciativa utiliza a expressão teatral para estimular o público a repensar seu papel na gestão correta do dinheiro público e no enfrentamento à sonegação, ao contrabando, à pirataria e à corrupção no Brasil.
O projeto chega a quase 400 apresentações neste ano de 2025, somando mais de 180 mil pessoas alcançadas e contando com versões em diversas cidades e outros países.
A peça tem uma inspiração clara nas histórias de “O Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna, e “O Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente. O texto é uma sátira moral que representa pessoas em seu julgamento final, onde são submetidas a um julgamento de suas atitudes na Terra, culminando na decisão de irem para o céu ou para o inferno.
A peça será apresentada no dia 30 de novembro, às 16h no Mudi, com o espetáculo à comunidade. É a oportunidade de ver a encenação que retrata políticos, servidores públicos e pessoas diversas com muita crítica em meio ao humor.
Texto redigido pelo bolsista do NAPI Paraná Faz Ciência, Guilherme Nascimento dos Santos, sob a supervisão da jornalista Silvia Calciolari











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