O encantamento de fazer parte da história pelos olhares de Débora, Fabi e João
O Museu Dinâmico Interdisciplinar (Mudi/UEM) não caminha sozinho. Ele faz parte de uma ampla rede de fortalecimento que inspira e potencializa o trabalho realizado no Paraná e no Brasil.
O Mudi integra a Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciências (ABCMC), que reúne diversos museus de ciência de todo o país, e também a Remup, a Rede Estadual de Museus e Centros de Memória e Documentação do Paraná. Além disso, participa ativamente da Rede de Museus de Ciências do programa Paraná Faz Ciência.
Esses ambientes coletivos fortalecem o diálogo entre instituições, criando oportunidades valiosas de troca de experiências, aprendizado contínuo e cooperação para promover a ciência de forma cada vez mais acessível e colaborativa.
Fazer parte da rede é participar de um ambiente de diálogo contínuo, formado por pessoas incríveis e que se importam com a visibilidade de espaços de divulgação científica no Brasil.
Em seus 40 anos, o Mudi possui milhares de histórias somadas. São pessoas que hoje atuam como coordenadores, curadores, professores, extensionistas, começaram sua experiência museal como monitores.
Débora de Mello Gonçalves Sant’Ana, por exemplo, começou sua história com o Museu Dinâmico Interdisciplinar (MUDI) em 1991, em seu primeiro ano de graduação no curso de Farmácia na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Foi onde conheceu o atual curador do Museu, Marcílio Hubner, o responsável por orientá-la a integrar a equipe do CIC, Centro Interdisciplinar de Ciências, que posteriormente viria a se tornar o Mudi.
O museu como espaço de formação e de extensão
Foram anos na monitoria, e atualmente como professora universitária, Débora coordena diversos projetos além de ser diretora de vários projetos do Museu. Ela atua como articuladora do NAPI Paraná Faz Ciência, projeto que busca essa aproximação da comunidade com a ciência e a tecnologia.
“A extensão universitária oxigena a vida universitária, porque ela traz as trocas com a comunidade. Nós estamos aqui na universidade para formar profissionais que sejam capazes de exercer muito mais do que funções técnicas. Nós estamos aqui para formar cidadãos, pessoas que tenham sensibilidade para o local, o território onde ela habita, onde ela está, onde ela estuda, onde ela mora, mas também que tenham a percepção do potencial de transformação social que cada um de nós tem”, destaca a professora.
O sentimento de pertencimento a essa cultura museal é o que mais permanece nas pessoas que passam pela experiência, seja na monitoria, seja na coordenação. O Museu é um local de exploração de conhecimento e de atividades, cada dia é único, cada momento é inesquecível. A integração de projetos que existem hoje, a tal da multidisciplinaridade, é o principal fator do crescimento dos ambientes e dos profissionais aqui.
Débora relembra de um momento em que a emoção bateu forte em seu trabalho dentro do Mudi, que além de surpreender, a deixou encantada com a vontade das pessoas de aprender. “Foi uma das memórias mais fortes a de uma exposição acessível que fizemos para pessoas cegas, com braille e materiais para toque visando construir uma experiência única”, conta.
Ela ainda enfatiza também que o principal ponto positivo da experiência com a monitora no Mudi é o aprendizado de lidar com pessoas, com as emoções e com a comunicação, algo que foi muito essencial para sua carreira profissional, a permanência na academia e atuação como professora.
A geração que cresceu dentro do Mudi
Na jornada de novos monitores, temos Fabiana Galvão, presente no Museu desde 2015.
Biomédica de formação, e hoje finalizando seu doutorado na UEM, ela já viveu diversos momentos desde que começou como monitora, como dar banho em coração de baleia, a dissecação da onça-pintada que está no ambiente de Zoologia. Há ainda experiências inusitadas, como rodar um padre no Giroscópio Humano e a oportunidade de apresentar o acervo em inglês para estrangeiros que visitavam o Museu.
Atualmente, Fabiana trabalha vinculada ao Museu na catalogação de acervo museológico. Ao olhar para essa caminhada, Fabiana reconhece que o Mudi foi essencial para a sua formação. Foi ali que aprendeu a falar com públicos muito diferentes, a adaptar seu discurso, a lidar com situações inesperadas e a desenvolver segurança para ensinar.
“Eu não teria a capacidade de me comunicar e dar aula como faço hoje se não fosse o museu, um lugar onde o aprendizado acontece na prática e de um jeito muito mais gostoso”, pontua Fabiana.
João Kuller, costuma dizer que sua relação com o Mudi tem duas fases: a de visitante e a de integrante do museu. A primeira começou cedo, aos seis anos de idade, quando veio pela primeira vez com a escola. Depois disso, voltou todos os anos, sempre encontrando um museu diferente, com novos enfoques e temáticas que mantinham vivo o encantamento.
Anos mais tarde, já no início da graduação em Biotecnologista na UEM, o Mudi reapareceu em sua vida. “Cheguei todo tímido e falei: eu quero ser monitor!”, lembra. E foi assim que começou sua segunda história com o museu, não mais como visitante, mas como parte dele, e atualmente atuando como bolsista do Mudi.
Para João, que vive intensamente esse universo, é impossível separar sua própria formação da experiência no Mudi. Ele diz que o museu foi peça fundamental para construir o modo como ele se relaciona com a ciência e com a sociedade.
Como biotecnologista, aprendeu que não basta produzir conhecimento: é preciso compartilhar. “Se a ciência que a gente produz não alcança a comunidade, ela não tem valor”, reflete. Para ele, o Mudi cumpre justamente esse papel transformador, de levar conhecimento como ferramenta que rompe barreiras, que forma cidadãos, que inspira.
Emoções e histórias que atravessam gerações
Débora, que foi monitora da sala de Anatomia, lembra bem de como esse acervo sempre despertou reações intensas. Muitos desmaios de visitantes que ficavam pálidos diante das peças anatômicas, perguntas curiosas, visitas que viraram histórias e histórias que viraram retornos.
Ela conta das crianças que voltavam no fim de semana após uma visita com a escola, trazendo seus pais pelas mãos, para que eles também ouvissem sobre os perigos do Tabagismo e vissem as exposições. “Tenho excelentes memórias afetivas ao longo da minha trajetória toda no Mudi”, resume Débora.
Esses laços também se constroem quando o museu vai até onde as pessoas estão. Participante do Projeto Muditinerante, como conta Fabiana, o trabalho ganha um poder especial, com os acervos viajando para escolas, feiras e exposições, cria-se um encontro que muitas vezes representa o primeiro contato de uma comunidade inteira com um museu de ciências.
“Cada viagem da itinerância é adaptada, por um período curto, às vezes. É uma troca viva, que aproxima universidade e sociedade por caminhos que nem sempre passam pela sala de aula.
E inspiração é algo que o Mudi carrega consigo desde sempre”, reforça Fabiana.
João lembra das itinerâncias em que diretores de escolas preparavam até churrasco como forma de agradecer a presença do museu. “Me lembro também das crianças que, após uma atividade, diziam com brilho nos olhos que queriam ser cientistas”, afirma João.
São pequenas sementes plantadas em visitas rápidas pelo interior do Paraná, mas que seguem crescendo muito além daquelas paredes do Mudi.
Entre desmaios na Anatomia, conversas sobre saúde, viagens pelo estado e encontros com crianças curiosas, o que se revela é um museu feito de afetos. Histórias que começam em um corredor, mas continuam na vida das pessoas e que mostram que ciência é encontro, cuidado e memória.
Texto redigido pelo bolsista do NAPI Paraná Faz Ciência Guilherme Nascimento dos Santos sob a supervisão de Silvia Calciolari













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