Oficinas transformaram conceitos científicos em experiências práticas, com crianças colocando a mão na massa, levantando hipóteses e fazendo descobertas
A 2ª Semana de Biociências e Diversão no Mudi teve como tema “O Mistério do Fóssil Perdido: A Grande Investigação Científica” e envolveu crianças de diferentes idades que compartilharam descobertas, curiosidades e muitas perguntas, mostrando o potencial do museu como espaço educativo. A proposta de aproximar crianças do universo científico, por meio de brincadeiras e oficinas práticas, ganhou vida ao longo dos quatro dias da colônia de férias no Mudi.
Como parte da disciplina de ‘Metodologias de Popularização da Ciência’, ministrada pela professora Débora Sant’Ana, do Programa de Pós-Graduação em Biociências e Fisiopatologia (PBF), da Universidade Estadual de Maringá (UEM), a colônia também foi um espaço de formação para os estudantes da graduação e pós-graduação da UEM, que atuaram como mediadores científicos, fortalecendo o vínculo entre universidade e comunidade.
Doutorando em Ciências Biológicas, Yudi Godoy explica que a Colônia de Férias foi pensada e estruturada a partir de um enredo investigativo. Ao longo dos quatro dias, as crianças participaram de oficinas interligadas por um mistério, o que exigiu um planejamento cuidadoso e uma abordagem diferente da mediação tradicional realizada no museu.

A experiência de participar da Semana de Biociências foi descrita pelos envolvidos como algo que vai muito além da aplicação de oficinas, sendo uma experiência única, tanto para as crianças quanto para os monitores, por permitir que o aprendizado continue além do museu e desperte curiosidade e reflexão.
Aprender brincando
A cada dia, as oficinas traziam uma pista que ajudava a avançar na investigação sobre quem havia extraviado o fóssil, sempre conectando o mistério ao conteúdo trabalhado.
Segundo Yudi, as crianças se envolveram intensamente com o enredo, buscaram pistas pelo museu, fizeram perguntas aos monitores e assumiram o papel de protagonistas da investigação. Tudo foi conduzido para que as crianças passassem por diferentes áreas da ciência na missão de desvendar o mistério do fóssil perdido. Cada dia trouxe novas pistas, conceitos e experiências práticas, transformando o museu em um verdadeiro cenário de investigação científica.
As oficinas foram pensadas para equilibrar aprendizado científico e entretenimento, com atividades práticas, investigação e contato com diferentes áreas do conhecimento, como Biologia, Química, Física e Entomologia.
No primeiro dia, elas foram imersas na “Cena do Mistério”, onde exploraram os espaços da Química e da Paleontologia do Museu. A programação contou com oficinas de Papiloscopia, nas quais as crianças aprenderam técnicas de identificação, comparação e experimentação com impressões digitais, além da oficina de Produção de Fósseis Artificiais, que apresentou conceitos de fossilização e tempo geológico.
Na quarta-feira, o foco foi o “Corpo das Evidências”, trazendo o ambiente da Anatomia para o centro da investigação. Na oficina de Investigação Forense, as crianças participaram da extração de material genético (DNA), entendendo como esse tipo de evidência é utilizado para identificar indivíduos e solucionar mistérios.
No terceiro dia, a jornada seguiu para “Natureza e Rastros”, conectando Zoologia e biodiversidade às investigações científicas. Na oficina de Entomologia Forense, os participantes estudaram insetos e outros artrópodes aplicados em investigações criminais. Já na oficina de Taxonomia, rolou a identificação e compreensão da sua função ecológica, ampliando o olhar sobre a importância desses insetos na natureza.
O último dia foi a finalização desta grande semana, “A Grande Investigação Final”, e reuniu todos os conhecimentos construídos ao longo da semana. E na oficina de Linha do Tempo Geológica, as crianças puderam integrar as evidências coletadas nos dias anteriores, revisitando conceitos de Paleontologia e organizando as pistas para solucionar, de forma colaborativa, o mistério do fóssil desaparecido.
Uma das oficinas mais marcantes foi a de impressões digitais, contextualizada dentro da investigação do sumiço do fóssil. A atividade ajudou as crianças a entenderem como funcionam as digitais e como elas são usadas em investigações reais. Yudi destaca que “a missão era transmitir o conhecimento científico e, ao mesmo tempo, entreter e engajar as crianças com o mistério. Eles absorveram todo esse conhecimento e saíram pedindo impressão digital de todo mundo: monitores, professores, funcionários”.

Na oficina de Física, a pista era uma lista de afazeres do suspeito escrita de forma invertida. A atividade explorou conceitos de Óptica e o funcionamento dos espelhos, levando as crianças a perceberem rapidamente que bastava posicionar o papel diante do espelho para decifrar a mensagem. Em pequenos grupos, elas analisaram os trechos da lista e identificaram uma referência aos óculos do suspeito, detalhe decisivo para solucionar o mistério.
Diego Lombardi, responsável pela oficina do último dia, avalia a experiência como muito positiva e destaca que as crianças se mostraram muito mais envolvidas na investigação do que ele imaginava.
“Já atuei como monitor e também como professor de reforço em um colégio particular, mas a dinâmica na colônia foi bem diferente. No ensino formal, o conteúdo costuma ser transmitido de forma mais vertical, de cima para baixo. Aqui, por ser um espaço de educação informal, o diálogo acontece de outra maneira: a gente conversa mais com as crianças, escuta o que elas têm a dizer, o que pensam e o que já sabem, e a partir disso constrói o conhecimento junto delas”, reforça Diego.
No final do terceiro dia, foi gravado um vídeo com algumas das crianças participantes onde elas puderam brincar sobre quem seria o culpado pelo crime do fóssil perdido. O encerramento consolidou a experiência científica de forma lúdica, investigativa e cheia de descobertas.
Integração universidade + comunidade
As crianças entraram no personagem, com muita consciência do que estava acontecendo e indo além do planejamento da equipe.
Giovanna Bacheski, também mestranda pelo programa do PBF, lembra de um momento marcante: “Uma menina de 9 anos nos disse que saiu do Mudi querendo ser cientista, porque queria desenvolver a cura para um problema de saúde da mãe. Ela contou que aquela semana foi crucial para a vida dela e para entender como a ciência pode ajudar as pessoas”.
Outro participante da Colônia de Férias, Felipe Vieira Arantes, de 9 anos, é de uma cidade vizinha, Paiçandu, e contou que sua participação, além de ser muito legal, pode se divertir bastante. Ele soube pela indicação da tia e veio com as primas, “conhecer o Ambiente da Zoologia foi muito interessante, com todos aqueles animais empalhados”, conta Felipe.
Maria José Pastre trouxe seu filho de 13 anos e sobrinho 12 para participar desta semana e conta que a experiência foi tão marcante no ano passado que as crianças passaram meses ansiosas pela nova edição. Segundo ela, é gratificante ver o entusiasmo com que chegam em casa relatando tudo o que aprenderam e as atividades que vivenciaram.
Para ela, a Colônia representa mais do que diversão: “É muito satisfatório porque eles chegam em casa contando tudo que aprenderam, as atividades que fizeram e eu como mãe eu fico muito feliz em saber que ele está num local seguro com pessoas qualificadas e ensinando coisas maravilhosas e não estão em casa, né? No videogame, na televisão e estão fazendo amizades aqui também”.
O grande suspeito
Tudo foi pensado como parte de um mistério, as pistas eram coisas que se achava pelo Museu como as características da pessoa culpada, coisas comuns para trazer a ideia que todo mundo poderia ser um suspeito. Porém, a ideia era dar a entender que o culpado era um dos monitores do Mudi, já que estavam ajudando o tempo todo nas oficinas e interagindo com os participantes.
Muitas crianças acabaram descobrindo que o grande culpado pelo Mistério do Fóssil Perdido era o monitor Mateus Roberto, aluno do curso de Biotecnologia da UEM, já que faz parte do quadro de monitores.
“A gente pensou no Mateus porque ele é um dos monitores que mais apresenta os ambientes do museu e está sempre em contato com o público. Como ele circula por todos os espaços, conseguimos distribuir pistas em diferentes ambientes, levando as crianças a perceberem que o suspeito era alguém muito presente, que conhecia bem todo o museu”, explica Yudi.

A partir das impressões digitais, por exemplo, as crianças aprenderam por que elas existem, como são coletadas e analisadas em investigações. Em outro momento, fios de cabelo levaram à discussão sobre DNA e características individuais. Assim, o mistério foi sendo desvendado enquanto conceitos científicos, comuns e menos comuns no museu, eram trabalhados de maneira integrada, prática e contextualizada.
Para os organizadores, apesar de uma semana intensa, a colônia de férias se encerrou de forma muito incrível e gostosa, com toda a preparação e desenvolvimento das oficinas por meio de uma brincadeira para despertar um propósito e mostrar uma luz no fim do túnel. “As crianças não são o futuro, elas são o presente, que vai construir o futuro do nosso mundo”, encerra Giovanna.
A Colônia de férias reforça o papel do Mudi como um espaço que vai além da visitação, atuando diretamente na formação científica de crianças e jovens.
Mais fotos podem ser vistas aqui.
Texto redigido pelo bolsista do NAPI Paraná Faz Ciência Guilherme Nascimento dos Santos





















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