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20 anos de Abaecatu

Quando música e poesia se tornam ferramentas de cidadania

O Grupo Abaecatu é parte de um projeto de extensão chamado ‘Música e poesia para falar de Cidadania, Ciência e Meio Ambiente’, no contexto nacional e internacional. As primeiras atividades desse projeto começaram em 2003, quando diversas instituições e entidades de Maringá começaram a discutir o que fazer para combater um título horroroso que nós detínhamos, de estar entre as cidades mais corruptas da nação na virada do século XX para o século XXI.

O conjunto de discussões levou a criação do projeto SER Maringá, Sociedade Eticamente Responsável, que era a voz de todas essas instituições públicas e privadas, e que representava o desejo de promover mudanças em Maringá.

As discussões também levaram ao caminho da educação fiscal, ou seja, ensinar a população sobre a importância social e econômica dos tributos para financiar tudo aquilo que é público, “era preciso ensinar para todo cidadão que, por mais pobre que ele seja, ele é um grande pagador de tributos, quem paga imposto não é só quem paga imposto de renda, toda pessoa que consome alguma coisa paga imposto”, complementa o professor Marcilio Hubner de Miranda Neto.

O músico José Ribeiro da Costa, mais conhecido como Tijolo, esteve desde o começo ao lado de Marcílio. As primeiras apresentações aconteceram entre 2002 e 2003, mas só em 2005, o projeto foi oficialmente transformado em projeto de extensão universitária e ganhou novos integrantes, consolidando a formação que permanece até hoje. Servidores da universidade, aposentados ou em atividade, todos atuam de forma voluntária no grupo: Marcia Capelete, responsável pela poesia, Enéias Ramos de Oliveira, musicista e locutor e, posteriormente, Mari Tenório na voz e composições.

Ao longo dos anos, diversos estudantes também passaram pelo Abaecatu, reforçando seu caráter formativo. Conforme Marcílio, o coordenador e palestrante do projeto, o grupo soma quase 600 apresentações e 300 mil pessoas impactadas.

É hora do show! Primeiros palcos e momentos importantes

Mari Tenório iniciou sua participação no projeto em meados de 2009, mas sua relação com o Abaecatu começou antes disso. Ainda em 2002, quando ingressou na universidade, ela assistiu a uma apresentação do grupo e se encantou com tudo o que viu, embora, naquele momento, jamais imaginasse que um dia faria parte da iniciativa.

“Foi a primeira vez que chorei ouvindo o Hino Nacional. Ele cantava com uma voz incrível, um talento que me emocionou de verdade. Era ele e o Marcílio, e aquela interpretação do hino foi a coisa mais linda que eu já tinha visto”, relembra Mari, visivelmente emocionada.

Já Marcia Capelete, menciona o seu primeiro grande convite: participar do lançamento do Guia de Fontes da UEM. A experiência misturou entusiasmo e insegurança, especialmente por levar a poesia ao palco, uma linguagem nem sempre presente no cotidiano do público.

Diante de professores, estudantes e funcionários da universidade, o Abaecatu fez ali sua estreia oficial. Ao final, um comentário simples, mas poderoso, ficou gravado na memória: alguém disse a Márcia que ela havia dado uma verdadeira lição de como falar em público. Aquele momento selou o início do caminho e deu ao grupo a confiança necessária para seguir.

Um episódio muito lembrado pelos integrantes, que também a envolve, é quando Márcia declama o poema “A mão do lixo”, de Tiago de Mello. Pois, quando feita de forma encenada, ela entra como uma pessoa em situação de rua, e conforme declama, vai pegando o lixo, e o fato de estar toda caracterizada e ser precedida por uma música segundo o tema, torna o momento bem introspectivo, rememora Tijolo.

Abaecatu além das fronteiras

O Abaecatu também levou sua mensagem para fora do Brasil. Entre as experiências mais marcantes estão apresentações em Cabo Verde, na África, e no México. Enéias relembra esta viagem à África, como foi bom estar em lugares que nunca imaginaria conhecer e ser muito bem recepcionado em aldeias que visitaram, além da força simbólica de ver uma língua popular valorizada e ensinada nas escolas, já que eles falam a língua Crioulo Cabo-Verdiana, eles possuem como língua oficial o português, “e lá, no interior de Cabo Verde, fazendo essas apresentações, eu vi uma das paisagens mais bonitas da minha vida, que era uma estrada, que margeia o mar, o litoral. Foi muito bonito aquilo lá, está gravado na lembrança, daquela paisagem de Cabo Verde.”

Para Mari Tenório, foi no México em que presenciou um momento muito marcante de ato político, entre as várias apresentações que fizeram, após o desaparecimento de 43 estudantes, “A gente estava no prédio, no hotel, 25º andar. De repente, eu escuto: ‘El pueblo unido jamás será vencido’ [O povo jamais será vencido, tradução livre]. A gente viu aquela multidão passando, protestando sobre aqueles estudantes que tinham desaparecido. Foi em 2014. Descemos e participamos daquilo. Foi muito forte para mim, um dos momentos mais impactantes, porque tinha vários grupos, com etnias, vestimentas, com sons, para mim, foi lindo.”

O mais interessante do projeto é sua capacidade constante de reinvenção. Ao transitar por diferentes temas, Enéias destaca o papel central da música, especialmente da música popular brasileira, como uma ferramenta rica de expressão. Por meio de suas diversas vertentes, o grupo encontra inúmeras composições que permitem comunicar ideias, sentimentos e reflexões.

Um exemplo marcante vem do período da ditadura militar, quando a repressão aos pensamentos não autoritários levou músicos e compositores a criarem formas diferentes para se expressar. Essas estratégias transformaram a música em um espaço de resistência e reflexão, algo que, segundo Enéias, ajuda não apenas a compreender a história, mas também a pensar a vida e o mundo em que vivemos. Esse contexto torna o repertório musical um campo fértil, capaz de inspirar ele e muitas outras pessoas.

Ao longo de 20 anos, a equipe já trocou algumas músicas e poesias diversas vezes para englobar o mesmo tema, para poder até dar uma desafogada e não cansar do repertório e ainda conseguir sensibilizar as pessoas.

O Samba do Imposto e o chamado à ação

Mais de duas décadas depois, o Abaecatu segue ativo, atual, necessário. Um projeto que prova que música e poesia não apenas emocionam, mas também educam, mobilizam e constroem uma consciência coletiva. Mais do que uma canção dentro do roteiro, o Samba do Imposto nasce como uma síntese do espírito do projeto: indignação transformada em linguagem popular.

A música fala do imposto embutido em todos os âmbitos, no que comemos, transportes e outros itens essenciais, ao mesmo tempo que traz a questão da carga tributária e ausência de serviços públicos de qualidade, gerando identificação com o público.

Com letra de Marcílio e música de Tijolo, a canção fala do cidadão como pagador de impostos, denuncia a ausência de serviços públicos de qualidade e provoca o público a sair da inércia. O refrão não é apenas musical, mas político:

“Aí meu deus que desgosto ver o uso errado que fazem do imposto.  

Seu moço, eu me perguntava o que um pobre coitado podia fazer para não ser roubado por um amigo político que acabou de se eleger.

Tudo isso me causou uma grande indignação.

Resolvi ir à luta, não ficar só na escuta e partir para a ação

Fiscalizar as contas públicas e colaborar com a educação.

Já não me sinto um otário não, quero ser roubado, exijo respeito, pois sou um cidadão.  Vamos lá meu povo exigir o bom uso do nosso imposto.”

(Trecho do ‘Samba do Imposto’)

O projeto trabalha educação fiscal muito nessa linha, já que o assunto, às vezes, é trazido de uma forma técnica demais, até se tornando meio chato. Então, para ficar mais suave e para não ficar trabalhando só a área racional, os números, eles começaram a fazer palestras intercaladas com músicas, que abordavam o mesmo que diziam em uma palestra. “Por exemplo, estou dando o dado da corrupção no Brasil, então, com essa informação, vem uma poesia que fala sobre corrupção, e vem uma música que denuncia esse tipo de corrupção. Isso fortalece os vínculos, porque a pessoa usa diferentes áreas cerebrais para poder entender isso”, reitera Marcílio.

Fiscalizar, cobrar e participar são atitudes centrais para o exercício pleno da cidadania. Marcílio Hubner destaca, que, a música funciona como uma convocatória para que as pessoas deixem de ser apenas espectadoras dos desmandos e se reconheçam como sujeitos políticos e verdadeiros cidadãos.

Impactos pessoais que são coletivos

Ao falar sobre o projeto, Márcia revela que o impacto vai muito além do palco, pois conviver com a depressão e realizar tratamento há mais de duas décadas fez com que aquele período anterior à sua entrada no grupo fosse marcado por um “fundo de poço”, como ela mesma descreve. Foi ao se integrar ao projeto que algo começou a mudar: a música, a troca e o trabalho coletivo passaram a aliviar a alma e devolver sentidos que pareciam perdidos.

Márcia acredita que essa vivência mostra que é possível encontrar felicidade mesmo em meio às dificuldades, e reconhece que o projeto transformou sua vida de forma definitiva. Mari reitera sobre essa ser uma construção coletiva do grupo.

Ao relembrar sua trajetória, ela se surpreende com os mais de 15 anos que se passaram, desde que entrou. Ela reconhece que o caminho não é feito apenas de harmonia. Existem, sim, embates, divergências de vivências e opiniões, coisas essas que são naturais e necessárias, já que cada integrante contribui a partir de sua própria bagagem. Mais do que evitar conflitos, o grupo aprende a transformá-los em amadurecimento.

Assim, o projeto segue vivo, pulsante e humano, construído não apenas por apresentações, mas pelas histórias, desafios e afetos de quem faz parte dele.

Texto redigido pelo bolsista do NAPI Paraná Faz Ciência Guilherme Nascimento dos Santos

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