Cientistas conversaram com mais de 700 pessoas sobre temas que mexem com o nosso dia a dia
Seis bares da cidade ficaram lotados de pessoas para ouvir pesquisadores e professores que contaram suas experiências com a ciência. Pelas contas do sistema de registro do evento, 755 pessoas foram alcançadas pelo Pint of Science 2026, em Maringá.
“Sabemos que nem todos os que se inscreveram foram, e que nem todos que foram se inscreveram, mas acho que podemos considerar esse número próximo do real. Assim, foram seis bares que ficaram cheios, alguns com gente de pé. Isso mostra que o Pint não movimenta só o universo da ciência, mas a economia da cidade, já que o pessoal consome durante o evento”, destaca a coordenadora do Pint na cidade, a pesquisadora e professora da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Carla Pavanelli.
O Pint of Science [diz-se “paint of saience”] reúne, em bares e restaurantes, pesquisadores e especialistas para discutir temas relevantes em diversas áreas do conhecimento. O evento acontece anualmente em diversas cidades do Brasil e é parte de um Festival que ocorre simultaneamente em mais de 25 países.

O Pint Maringá seguiu o calendário do Festival mundial: dias 18, 19 e 20 de maio. A comissão organizadora, que conta com 36 membros da UEM e da Unicesumar, selecionou seis bares (dois em cada dia, simultaneamente).
No dia 18, o professor do Departamento de Física da UEM, Luiz Roberto Evangelista, falou sobre o que é ser um cientista e sobre a necessidade de formar novos amantes da ciência. A palestra foi no Bar Caravelha. Em uma apresentação recheada de dados e poesia, mostrou a história de pessoas que contribuíram para o desenvolvimento de diferentes tecnologias. Gente comum, igual a qualquer outro que poderia estar ali em uma mesa, mas que teve a oportunidade de criar. “Precisamos acreditar na ciência, no livro, nas novas gerações, porque a ciência está na nossa jornada, é parte da nossa vida”, reforça o professor.

A aposentada Lelian de Abreu, de 91 anos, era uma das pessoas que estavam na plateia do Caravelha. Ela foi comemorar o aniversário do filho, Luiz Felipe, pesquisador da UEM, misturando ciência, caipirinha e um caldinho de abóbora que disse que estava delicioso. “É sempre importante valorizar o conhecimento. Eu falo isso porque sou mãe de dois cientistas da UEM e de uma chef, que faz ciência na cozinha. Essa aqui é uma oportunidade das pessoas se darem conta de que fazemos ciência no dia a dia”.
Ainda na segunda (18), na cervejaria RedCor, a professora do Departamento de Biotecnologia, Genética e Biologia Celular da UEM, Andressa Domingos Polli, falou sobre os fungos magnéticos, uma inovação da nanotecnologia para a área ambiental. “Acho que esse evento tem uma importância muito grande na popularização da ciência. Ajuda a tirar as barreiras que nós temos da universidade com a comunidade. A gente traz um pouco do que nós fazemos de uma forma mais lúdica, descontraída e divertida, mas sem perder também a ciência que está envolvida no processo”, lembra Andressa.

Terça-feira
No Bar, apenas Bar, a conversa girou em torno da pergunta: quem pode participar da luta antirracista? Marivânia Conceição Araújo, que é professora do Departamento de Ciências Sociais da UEM e coordenadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares Afro-brasileiro, além de atuar na ABNP – Associação Brasileira de Pesquisadores Negros, foi quem dirigiu os trabalhos da noite. “É importante que a gente tenha espaços que dêem visibilidade aos diferentes tipos de ciência. A experiência em falar no bar foi muito interessante. Quando eu cheguei, achei que não fosse dar certo, porque este é um lugar aberto, tem o carro passando, barulho… Mas foi muito bacana, muito legal. As pessoas interagiram, prestaram atenção”, comemorou Marivânia.

Um dos espectadores da professora, o Danilo, disse que tinha 20 anos e não fazia parte de nenhuma instituição de Maringá. Ele veio de Paranavaí para a cidade, principalmente por causa do tema e da relevância que ele tem por conta das raízes dele, que é negro. “O Pint é um evento muito relevante para as pessoas que não gostam de eventos muito formais. Os alunos simplesmente não gostam de assistir palestras. Mas como a gente está em um ambiente mais informal, você se sente mais à vontade, você não tem vontade de ir embora”, confessou o universitário, que faz o curso Engenharia de Software, no IFPR Instituto Federal do Paraná, de Paranavaí.
Marcelo Augusto Batista foi o convidado que movimentou a Hórus Cervejaria. O engenheiro agrônomo e professor da UEM, mostrou a pesquisa que busca entender como melhorar o uso de fertilizantes na agricultura, aumentando a produtividade das culturas de forma mais eficiente e sustentável. “Hoje tive a oportunidade de, dentro de um bar, palestrar sobre nanomateriais e nano fertilizantes. Vivemos num ambiente agrícola que demanda muito esses produtos. Então, mostrei que nosso trabalho é encontrar formas de ajudar quem produz a gastar menos dinheiro e produto, contribuindo também para a comunidade em geral. Agradeço muito aos organizadores, ao dono do bar… Foi um evento extraordinário”, reforçou Batista.

Arte e morcegos
No Don Beer, a discussão girou em torno “Da necessidade da arte”, na quarta-feira. O papo foi com o sociólogo e professor aposentado da UEM, que tem trajetória destacada também nas áreas de cultura e artes cênicas na cidade, Eduardo Fernando Montagnari. Para ele, a experiência foi muito interessante, porque, segundo o professor, ele já havia cantado em bares. “Eu tenho experiência com bar, com cerveja. Eu adoro bar. Ganhei a vida cantando em bar, em São Paulo. Até gravei, na época do vinil, com um grupo chamado Vapor Barato. Mas, falar de ciência nesse lugar, foi sensacional”, disse Montagnari.

O professor associado do Departamento de Biologia, da UEM, e coordenador do Grupo de Estudos em Ecologia de Mamíferos e Educação Ambiental (GEEMEA), Henrique Ortêncio Filho, fez a palestra “Morcegos: extraordinários por natureza”. Mostrou que é isso que esses animais são, apesar das espécies serem cercadas por mitos e lendas. “Lamentavelmente as pessoas não conhecem a enorme importância que os morcegos têm em um contexto ambiental. Hoje, eu pude conversar um pouco com o público sobre isso, trazer informações, curiosidades, características e frisar sobre os diversos papéis que os morcegos têm na natureza e que beneficiam os seres humanos também.”
A proprietária do Atari Bar, onde o professor Henrique palestrou, Gimena Dipp, disse que gosta muito de proporcionar a ida da ciência para o bar, do pessoal da UEM, dos professores, dos alunos e das palestras, que são todas muito legais. “Eu acho que essa extensão da UEM aqui dentro do nosso bar é super especial, pois muitos dos que trabalham aqui também estudaram lá ou estudam até hoje. Então, a UEM é super importante pra nós e o Pint of Science mora no nosso coração. A gente vai fazer sempre de tudo pra ser recorde de público. Acreditamos muito no projeto e vamos apoiar sempre essa parceria. Obrigada a todos que compareceram!”, mandou recado a empresária.

Ao final de cada palestra, os organizadores abriram espaço para perguntas do público e, em seguida, realizaram sorteios de brindes oferecidos pelos realizadores e patrocinadores aos participantes inscritos no evento. Entre os itens sorteados estavam camisetas, canecas, copos, chaveiros e vouchers.

O Pint
O Pint of Science ocorre anualmente em mais de 25 países e tem o objetivo de levar pesquisadores e especialistas a bares e restaurantes para discutir temas relevantes em diversas áreas do conhecimento.
O evento foi criado em 2012, na Inglaterra, e chegou ao Brasil em 2015. Desde então, vem crescendo e ganhando destaque. A edição de 2025 contou com 27 países, 512 cidades participantes, 2.884 eventos simultâneos em três dias, envolvendo 6.088 palestrantes e público estimado de 130, 4 mil pessoas. No Brasil, foram 145 cidades participantes, 853 eventos simultâneos, 294 palestrantes e público estimado de 50 mil pessoas.
Maringá participa desde 2021, o festival foi incluído no Calendário Oficial do Município desde 2023 e tem apoio da Prefeitura de Maringá, que apoia a iniciativa, por meio da Secretaria de Aceleração Econômica e Turismo (SAET) de Maringá. O evento ainda conta com a parceria da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
Texto redigido pela jornalista Ana Paula Machado Velho

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