Quem passa pela monitoria no museu universitário jamais esquece do que vivenciou e aprendeu
O Museu Dinâmico Interdisciplinar, da Universidade Estadual de Maringá (Mudi/UEM), completa 40 anos em 2025, com muita ciência e integração do meio acadêmico com a comunidade.
O espaço museal, que proporciona muitas experiências e histórias para quem percorre seus corredores e jardins, integra a Rede de Museus Paraná Faz Ciência e é reconhecido como o maior museu de ciências do Paraná e está na lista dos dez museus mais visitados do Brasil, feita pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), em 2023. Nessas quatro décadas, o Mudi mantém um legado valioso para a Universidade e marca as gerações de estudantes e pesquisadores que passaram por ele.
Um dos exemplos das experiências com a ciência é o da enfermeira Katharina de Andrade, graduada pela UEM, que ainda guarda as vivências e aprendizados no Mudi e os aplica em projetos pelo mundo, onde construiu uma trajetória de vida inspiradora.
Além dos visitantes que o museu recebe diariamente, os monitores contribuem muito para aproximar a ciência das pessoas e interpretar o mundo que nos cerca. Katharina relembra sua experiência na monitoria na área de Anatomia Humana e como os aprendizados daquele período seguem muito presentes em sua vida, atualmente. Independente de qual área o monitor esteja estudando, é preciso aprender os conteúdos de todos os espaços para transmitir o conhecimento científico de maneira acessível e atrativa, para visitantes de todas as idades.
Porém, Katharina foi além da monitoria. Por meio do projeto de extensão do grupo de teatro ‘Arte, Ética e Cidadania’, que encena a peça “O Auto da Barca do Fisco”, Katharina relembra os motivos que a levaram a participar do espetáculo, ao se apresentar como a personagem Arcanjo Rafaela, que este ano completa 20 anos de apresentações.
“Não é só um teatro! A peça desenvolve questões de oratória, de expressão, de como lidar com as pessoas. E, se hoje eu sou professora, acredito que esta experiência foi, realmente, um diferencial na minha trajetória profissional. […] A gente já teve público de 30 pessoas, como já teve público de mais de mil pessoas, então, não tem como falar que isso não foi essencial”, avalia.
Atualmente morando no Norte da África, Katharina esteve em Maringá no último sábado, 23, reencontrou o grupo de teatro e foi convidada a fazer uma participação no espetáculo, que encerrou o II Encontro Anual das Graduações da Educação à Distância (EAD), da UEM. Aliás, é bom lembrar que o texto completa 20 anos de apresentações, em 2025.

Autor do texto da peça e integrante do elenco, o professor titular do Departamento de Ciências Morfológicas da UEM, Marcílio Hubner de Miranda Neto, comenta sobre o espetáculo, que já foi assistido por mais de 180 mil pessoas em duas décadas.
“Mais do que contar histórias e falar de Educação Fiscal e Cidadania, a peça mostra como a realidade insiste em se repetir: corrupção, abuso de poder, exploração. Por isso, certas passagens nunca saem do texto, porque, infelizmente, continuam atuais. O público adora a história do avião, mas sempre vamos inovando. No começo estranha, mas depois entende que é sobre como a vida das pessoas pode ser atravessada por tragédias coletivas e pessoais”, reflete.
Ampliar horizontes
Atualmente, como professora de enfermagem, Katharina possui em sua bagagem uma coleção de trabalhos por diversas partes do mundo. O currículo registra atividades desenvolvidas em visitas à Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor (antiga Febem), atual Fundação CASA, do Governo do Estado de São Paulo, até projetos no interior do Paraguai, onde não havia nem mesmo água encanada.
Outro trabalho marcante, desenvolvido na Bolívia, foi quando a enfermeira viajou para exercer atividades com jovens. Katharina participou das ações de uma campanha de vacinação contra a Influenza, coordenada pela Cruz Vermelha, instituição que presta ajuda humanitária no mundo todo.
“Foi muito legal! A população, principalmente as mais carentes, às vezes, não têm conhecimento ou acessibilidade. Como Cruz Vermelha, visitamos escolas, fizemos palestras, fomos vacinar nas casas, fazer esse tipo de ação”, destaca Katharina.
A oportunidade de atuar em iniciativas na África veio após alguns anos em vários países, sempre com um trabalho focado na Enfermagem. As experiências resultaram em três livros didáticos. “De certa forma, eu tentei traduzir a ciência, como fazia como monitora no Mudi, para conscientizar e aproximar a população e, também, de certa maneira, trazer elementos de cada cultura para ficar mais fácil para as pessoas absorverem o que eu dizia”, explica.

Uma barreira encontrada pela profissional, obviamente, é aprender uma das línguas mais difíceis do mundo, o árabe. Porém, a comunicação se dá muito pelo inglês e com a ajuda de tradutores. Katharina conta que sente a necessidade de aprender o idioma muito pelo fato de lidar com questões de saúde, principalmente, quando se trata de saúde da mulher e da criança.
Ela se orgulha do trabalho que tem feito e das vivências que gera a partir disso, levando-a a outros lugares, como dar aula para refugiados palestinos, sírios e iraquianos, no Oriente Médio. Mesmo já acostumada a dar aula para refugiados, ali é uma realidade totalmente diferente, diante de uma nova cultura, mas que considera práticas positivas.
“Desde criança sonhei em trabalhar com projetos sociais e na área da saúde. Então, quando você sonha algo, você começa a ter contatos que levam a outros contatos. Foi assim que cheguei nesses projetos todos, inclusive no Norte da África e no Oriente Médio”, conta Katharina .
Memórias, aprendizados e transformações
Neste contexto, o papel do museu na vida de quem passa por ele é ressignificar. Katharina se sente completamente transformada pela cultura africana, apesar de existir o choque e a barreira inicial da língua, tanto nela como naqueles com quem tem contato, ainda assim, houve um aprendizado mútuo. É preciso lembrar que nesses países, a influência religiosa é muito grande, por muitas vezes ainda com comportamentos machistas, a sua presença se torna fundamental como autoridade ao atuar como professora.
Em sua passagem por Maringá, Katharina contou ainda sobre uma tradição comum na cultura deles é a família nomear seus filhos em homenagem a pessoas por quem se tem uma grande admiração. E foi isso que aconteceu com ela em algumas ocasiões: “A filha dela tinha parido, era uma menina e ela botou o nome de Katharina, porque desejava que essa menina fosse uma doutora como eu. Assim, a gente vai deixando um legado e um rastro de bondade por onde passa”.
Os 40 anos do Mudi é marcado por histórias como essa, que inspiram, transformam pessoas e se repetem a cada novo monitor que chega para mostrar que a ciência é importante e está onde a gente for.
Texto redigido pelo bolsista do NAPI Paraná Faz Ciência, Guilherme Nascimento dos Santos, sob a supervisão da jornalista Silvia Calciolari.

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